O TIRO, ERRANTE, CERTEIRO.
GEFA
Ainda que eu fosse apenas um principiante na arte de contar histórias não justificaria minhas lágrimas ao lembrar esta. Se sou, unilateral na afirmação, um contador nato – posso dar-me o luxo de com elas molhar o papel enquanto a pena, ansiosa, descansa a mão?
Antes, porém de ser escritor sou homem – ainda que não saiba quem veio primeiro – mas deste certamente veio aquele e de ambos principiou o pai. E é como tal que falo de lágrimas ao contar esta história.
Sem demoras, voltemos a roda do tempo até um passado não muito longínquo. Dias que se foram certos de serem tão presentes quanto ausentes. Têm os poetas, se ainda não sabes – impaciente leitor – o dom, ou mesmo o poder de controlar o tempo. Sim, exatamente isto. Podemos ir ao passado tão rápido e repentino quanto vamos ao futuro. Do passado podes saber que não mentimos, pois são fatos o que a história conta; do futuro, bem esperes e verás.
Voltemos, então, ao ano de mil novecentos e setenta e seis. O dia não me lembro exatamente, não se faz necessário lembrar. A cidade é a pequena Entre Lagos, sudeste do estado de Minas. Cidadezinha pequena, quatro, cinco, talvez seis mil habitantes. Quase todos parentes. Povo feliz. Longe do avanço tecnológico que ditava regras nas cidades grandes.
A agricultura era o suporte das bases financeiras. Economia que impulsionava o crescimento quase imperceptível do lugarejo. Ninguém sabe ao certo o porquê do nome – ENTRE LAGOS. Não havia sequer uma lagoinha aos redores. Um rio pequeno e fraco cortava a cidade ao meio e só. Mas alguém algum dia achou de a chamar assim e pronto, aqui estamos nós colocando a cidade de Entre Lagos no mapa literário.
Naquela manhã de, já sabes o ano, a cidade fora acordada com uma bomba. Não esta que podes estar imaginando agora, tipo nêutrons, atômica, nada disso. Realmente a notícia tinha este efeito para a cidade. Causara tanta tristeza e desespero quanto aquelas jogadas no Japão. Também, logo o filho do Seu Nerson foi morrer. Menino novo, bonito, esperto. Agarrado ao pai como formiga ao doce. E morrer daquele jeito! Não, não estava nada certo, era tristeza demais para todos, quem dirá para o pai e para a mãe do menino.
Antes de irmos ao cemitério, o que me custa fazer, vamos primeiro ao acontecido. O menino fizera birra para ir à caçada com o pai e o tio. Nerson não queria deixar, achava o menino ainda moleque demais para embrenhar na mata atrás de tatus e pacas. Mas, diacho, era tão agarrado a ele o menino, tinha mesmo de deixar. Caso contrário, ficaria o pobrezinho desolado sentado à escada da casa o dia todo esperando a volta do pai. “Então vamos, moleque! Arrume lá a espingarda e tuas coisas, saímos logo cedo”. Bastou uma frase e o menino correu a arrumar as coisas na maior felicidade do mundo. A mãe o ajudara, também não lhe agradara a idéia do menino agarrado em armas no meio do mato, mas como o pai estava junto, não haveria de acontecer nada de mal ao seu menino.
Saíram logo cedo, o sol nem nascera. Pai, filho e tio sumiram na mata. Pôde a mãe acenar um adeus na última vez que o menino olhou para ela e só. Seria aquela a última vez que o veria com vida. Os olhos pequenos de sono, o sorriso no olhar e a boca suja de broa que ainda comia ao caminhar estariam presentes para sempre em sua memória.
Na mata o moleque se comportava como um verdadeiro caçador. Atento a todo barulho e movimento, nada escapava ao seu olhar. O pai orgulhoso o observava atento, cuidando que nada lhe acontecesse. No seio do astro rei muitos disparos, muita correria e duas pacas. Caçada boa, prometia melhorar ainda mais quando avistaram os três ao mesmo tempo uma capivara que deveria ter uns quarenta quilos, era enorme ao lugar. Grande e arisca como só as enormes capivaras sabem ser. Num gesto do pai, o filho foi para um lado, o tio para o outro a fim de encurralar o bicho. Dois disparos e nenhum acertou o bicho que saiu em carreira. Os três foram atrás com suas espingardas. Na correria se perderam um do outro, nem perceberam tal situação. Cada um decidido a matar a capivara.
Mas nesta correria toda, desta vez saiu vencedora a caça e perderam os caçadores. O tio perdera o sobrinho, o pai o filho e o menino a vida. Tudo se deu assim: viu o menino uma moita se mexer, apontou a arma, aproximou – queria ter certeza de não perder o bicho novamente. Foi sorrateiro, queria atirar no exato momento. Pensou que deixaria o pai feliz e orgulhoso se conseguisse matar um animal daquele tamanho. Bem perto da moita usou o cano da espingarda para tirar o mato da frente de sua visão. O barulho assustou, não o bicho, mas o pai que estava do outro lado que sem pensar se quer um segundo atirou duas vezes. Era esta a lógica até então, atirar logo para não perder o bicho. E o tiro foi certeiro sim. Não desperdiçou uma bala sequer. Ambas atingiram certeiro o alvo, mas não o animal que na certa estava longe dali e sim o peito do seu filho do outro lado da moita.
Só pôde o pai vê-lo instantes antes de morrer. Correu para pegar o animal morto e viu o filho ensangüentado, trêmulo, assustado. Pegou-o nos braços tapando os buracos das balas, gritou o irmão que chegou em instantes. Desesperou, esbravejou e xingou o mundo. Tudo em vão, nada salvou a vida de seu único filho. Este, no entanto, disse ao pai sua última frase:
- Você viu papai quase que eu peguei o bicho?
- Meu filho, o que eu fiz? Não morre meu filho, por favor. Não! Gritou enlouquecido.
Talvez não tenha tido nem tempo de ouvir o pedido do pai, morreu ali mesmo o menino. Morreu o moleque nos braços do pai. Morreu ali também o pai, é bem verdade. E mais adiante saberá o leitor do que falo.
A rua que trazia da mata até a casa de Nerson era pequenina. Tudo na cidade era pequena, mas naquele dia ficou ainda menor tamanha era a quantidade de pessoas que se foi juntando para ver o tio e o pai carregando numa rede improvisada o menino morto.
Chegou na casa da mãe a notícia antes do corpo. Esta não quis acreditar. Nem ao menos saiu. Ficou na sala em estado de choque. Era como uma estátua petrificada. Olhar fixo no chão, olhos estatelados. Chegou o corpo. Ouviu pessoas chorando, a porta sendo aberta, passos no assoalho de madeira. Manteve-se imóvel. Relutante até o momento em que o marido se ajoelhou à sua frente.
- Perdão mulher, eu matei nosso menino. O homem meteu o rosto nas mãos e chorou. A mulher olhou lentamente na direção do corpo no chão. Viu primeiro a mão do menino suja de sangue para fora da rede. Levantou-se e caminhou até o corpo. Corpo de criança. Respirou fundo, fechou os olhos numa tentativa inútil de acordar daquilo que lhe parecia um pesadelo. Ainda de olhos fechados puxou o pano que improvisaram como rede, abriu os olhos e viu seu menino morto. Parecia dormir, se não fosse o sangue estaria dormindo sim. Tinha o semblante alegre, sem dor. Parecia feliz. A mãe ajoelhou perto de seu rosto, acariciou seus cabelos, beijou sua testa e amparou a cabeça em seu ombro. Ficou ali parada, chorava longa e tristemente. O marido não tinha forças para ampará-la. Permaneceu de longe assistindo a tudo mergulhado em sua dor, a mais triste que poderia um homem sentir. A dor de ter matado seu próprio filho.
Entrou pela porta correndo o padre da cidade. Tão logo ficou sabendo do ocorrido foi para lá. A mulher amparada por ele se levantou. Pediu que o cunhado e o padre colocasse o menino na cama. Era preciso arrumar o corpo. Limpar o sangue e vestir outra roupinha no seu filho. A mais bonita, a que ele mais gostava e que usava apenas para ir às missas. Assim fizeram o padre e o tio.
Em seguida chegou cabo Silva, a maior autoridade policial da cidade em serviço no momento. Vendo-o entrar Nerson falou:
- Pode me prender seu cabo, foi eu. Eu matei meu filho. Disse isto caindo aos pés do policial que não sabia como agir. Ficou sabendo do ocorrido, mas cuidou ter o povo aumentado a história.
- Então é verdade? Perguntou o policial.
- Sim, é verdade, eu matei meu menino. Prende-me, me coloca na cela mais suja e escura e depois jogue a chave fora. Implorou o homem desesperado. De dentro do quarto veio o irmão de Nerson em sua defesa.
- Prende não seu cabo. Eu estava lá, eu vi tudo, foi um acidente.
- Acidente nada, eu matei meu menino. Eu matei minha vida, meu moleque agarrado. O policial atordoou-se mais ainda. Não sabia o que fazer. O que era certo? Seria justo prender um pai que acidentalmente mata o filho? Fora acidente sim, claro, Nerson era um ótimo homem, trabalhador, honesto amava a mulher e o filho. Nunca se envolveu numa confusão que fosse nos quinze anos em que o cabo trabalhava na cidade.
O cabo Silva não o prendeu. Preferiu se aconselhar com o delegado da cidade vizinha, mas não antes do enterro. Era amigo da família e queria se solidarizar naquele momento. Tratou de tirar a farda para acompanhar o velório e o sepultamento, não queria dar a impressão que prenderia Nerson a qualquer momento.
O enterro foi às quatro da tarde. Padre Benito fez um bonito sermão. Estava chocado com o acontecido. Era a primeira vez que enterrava uma criança naquelas circunstâncias. Ressaltou durante suas palavras a boa índole de Nerson, talvez para que não ficasse nenhuma dúvida sobre sua inocência.
Na despedida final Nerson se desesperou ainda mais. Implorou que Deus o levasse também. Pediu perdão ao filho inúmeras vezes. A mãe desmaiou na hora que o caixão tocou o fundo da cova. Acordou a tempo de jogar uma rosa. Abraçou o marido e lá ficaram parados e solidários um ao outro até que a última pá de terra foi jogada. A pedido do padre saíram do cemitério. Foram para a casa. Ficaram na companhia de alguns amigos algumas horas. Depois tiveram que aprender a conviver com o silêncio em casa. Não havia mais cantorias nem correrias pela casa. O menino não jogava mais bola nos fundo do quintal com seus adversários imaginários. Nem entrava pela porta da sala ao meio dia, vindo da escola varado de fome.
Seis dias se passaram a passos lentos. Eram cumpridas a noites. Nerson não se conformava. Havia ido até a delegacia da cidade pedir ao Cabo Silva que o prendesse pelo crime. Ouvira deste que não era necessário. Que juiz nenhum o julgaria culpado, nenhum juiz o prenderia. Já recebera como pena a morte do filho que lhe era mais pesado que cinqüenta anos na prisão.
Na manhã do sétimo dia, ao se levantar a mãe órfã encontrou um bilhete no móvel de cabeceira do marido. A letra era trêmula e fraca, rabiscada, quase ilegível. Correu a casa toda a procura do marido não o encontrando saiu para a rua. Perguntou as pessoas que ali estavam, ninguém o tinha visto. Sentiu um aperto no coração. Entrou novamente e caminhou até a cozinha, resolvera abrir a janela para o sol entrar. Por esta pode ver o corpo do marido já sem vida dependurado por uma corda no pé de jabuticaba. Correu ao seu encontro. Gritou por ajuda, o vizinho do lado ouviu, de cima do muro viu a cena o pulou e correu para tirar o amigo da corda. Tudo tarde, o homem não mais tinha vida.
Outra vez a notícia chocou a cidade. O Cabo Silva, coitado, este foi o último a chegar na casa, estava triste consigo mesmo. Culpava-se pelo ocorrido. Se o tivesse prendido, certamente ele não teria chegado a tanto desespero. Pelo menos na cadeia ele estaria seguro de si próprio. Um amigo tratou de lhe tirar tais pensamentos da cabeça.
A mulher, agora viúva de marido e de filho estava em estado de dar dó. Não se podia imaginar tanto sofrimento para uma única pessoa.
A missa de sétimo dia do filho fora celebrada na casa de Nerson, aos pés de seu caixão. Não sabia o padre se exaltava a memória do filho, do pai ou se pedia a Deus que desse forças à viúva para suportar tamanha dor. O enterro foi acompanhado por umas três ou quatro centenas de pessoas. O cemitério não suportou tanta gente. Muitos ficaram do lado de fora. Outros nem se atreveram a ir, mas do alto de suas sacadas renderam homenagem estendendo panos pretos em sinal de luto ao passar do cortejo.
Como últimas palavras de adeus decidiu a mulher ler o bilhete do marido:
“Não posso viver com a culpa de ter matado meu filho. Ele era tudo para mim, minha vida, meu ar, meu sol, minha lua. Que Deus dê a ele o paraíso. Eu te amo, meu moleque agarrado“.
1 comentários:
Bonito conto, Ferraz. Uma tragédia literária, com certeza.
Abraços
claudia villela de andrade
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