quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O pedido de casamento

O pedido de casamento


Já estava para sair quando se deu conta de que nada falara à mãe sobre suas intenções de pedir a mão de Isabela em casamento naquela noite. Então subiu as escadas correndo, as mesmas que havia descido ainda há pouco e chegando ao corredor que levava aos quartos uma dúvida tremenda lhe afligiu a alma de supetão, e era esta; mas e se Isabela não aceitar meu pedido de casamento, o que farei? Ora, era a mesma pergunta novamente lhe embrutecendo a ama, como poderia a jovem moça lhe recusar como marido se era ele um dos melhores partidos da cidade, se não o mais desejável. Claro que vai aceitar sim, pensou, ainda mais dado a circunstância do pedido, não lhe restara outra se não sentir-se a alma banhada de emoção e calor. Então entrou ao quarto da mãe depois de bater e de ser autorizado e foi lhe dizendo:
- Minha mãezinha – era assim que lhe chamava carinhosamente – ainda agora estou indo ao baile do comendador João Fernandes, lá eu pedirei a mão de Isabela em casamento.
- Mas meu filho, disse a doce senhora, tem certeza de que é mesmo esta moça que queres ao teu lado por toda eternidade?
- Sim, tenho certeza disto minha mãezinha, além do que já estamos enamorados a seis e meses, creio que é esta a atitude que espera de mim.
- Está bem então meu filho, vá com Deus e que Ele lhe abençoes esta decisão.
Tão logo ouviu estas palavras e o jovem saiu à carreiras do quarto rumo a escada que novamente lhe levaria à sala de entrada casa e em seguida estaria no jardim onde uma carruagem já lhe esperava.
A doce senhora no quarto, mãe de nosso personagem apaixonado, como já bem o disse é uma doce senhora e limito a referir-lhe apenas esta definição. Deixemo-na com suas lástimas e impressões da vida em silêncio no seu quarto até porque lhe cabe papel principal e não apenas o de figurante neste que apesar de ser a história de seu filho não lhe diz respeito. Que me perdoe a mãe que por acaso tomar para si as dores desta doce senhora, mas a realidade é que em certos momentos na vida de um filho não passam de figurações as pobres mães, percebes isto, agora menos embrutecida nas atitudes de nosso amigo. Este sim precisa e se faz necessário uma olhada mais amiúde.
Seu nome é Cláudio Rodrigues de Alvarenga, doutor Alvarenga como é mais conhecido por toda redondeza. É um jovem engenheiro de costumes reclusos que lhe definem aos olhos alheios como metido em si. Não confundas esta alcunha como sendo nosso Doutor mais um destes riquinhos a andar de cabeça erguida julgando-se o mais inteligente, culto, bonito, sagras e tudo mais quanto possa imaginar e que eu por não ser esta a sua definição me limito a imaginá-las. Metido em si aqui vai pelo fato de Cláudio Rodrigues não gostar de responder ou participar de qualquer tipo de debate em que não entenda tudo por inteiro, como um todo. Um exemplo do que fala é a maneira com que lhe ocorrem as coisas na cabeça; se alguém lhe indaga a opinião sobre isto ou aquilo, relevante ou não, nada responde se não antes de refletir sobre os vários e possíveis ponto de vista da questão. Mesmo assim, depois de chegar a uma conclusão ainda sim repensa tudo novamente para ter certeza de estar certo. Há de entender que tudo isto lhe ocorre de maneira automática e ao longo do tempo já lhe é natural e expressivamente rápido como tudo lhe passa à cabeça diria que mais rápido que um piscar de olhos. Mas há no mundo, ainda que poucos, os que conseguem piscar bem rápido, o suficiente, pelo menos, para lhe perceber esta particularidade, daí, uma vez percebido e delatado aos outros tudo toma proporções tal que passam todos a perceber-lhe tal coisa, mesmo não percebendo nada.
Mesmo metido em si, doutor Alvarenga é jovem, como já disse, alto, cabelos negros e penteados em duas partes, divididas ao meio. O bigode é sempre muito bem e cuidadosamente aparado de tal forma que não lhe impede os lábios de serem vistos. O nariz é dos grandes e curvado para baixo, mas o queixo quadrado e furado ao meio lhe recompõe a tempo, um ar de homem maduro e belo. Para não mentir este narrador o doutorzinho vai na carruagem metido em si, mergulhado em seus pensamentos. É bem verdade que está tão convencido de seu amor por Isabela que se quer lhe passa pela cabeça que a pobre jovem poderia lhe negar a vida juntos.
Sabes tão bem, talvez melhor do que eu, o que foi passando pela cabeça de doutor Alvarenga até a casa do comendador. Mais ainda se já pediu alguma rapariga como Isabela em casamento. Ah, a Isabela! Até agora tenho me recusado a falar sobre esta, mas como nosso doutor já está à porta da festa, apresentando o convite, adiantemos e mostremos já o que dentre em breve ele constatará por si mesmo.
Isabela se traz vestida em um longo e bordado vestido negro – era moda nesta época os vestidos longos – mas não era ainda hábito os vestidos negros e esta escolha lhe foi feliz. Seus cabelos longos e louros, e encaracolados caiam sobre as alças do vestido que permitiam o audacioso decote para a ocasião. Decote este que lhe realçava o colo e também as costas eram trazidas nuas. Seria vista pelos outros convivas, principalmente pelas convivas com vulgar qualquer outra mulher naquele vestido de festa tão à frente do tempo, mas não Isabela, esta não se permitia vulgaridade. Os olhos azuis destacavam no rosto redondo de pele branca, a boca cuidadosamente pintada de vermelho, não o vermelho extravagante, mas o sutil. O salto lhe deixava ainda mais alta do que na realidade o era, em fim, era a mais bela da festa e trazia sobre si todos os olhos e comentários do lugar.
Foi esta a Isabela que contemplou os olhos iluminados e diria até úmidos de Alvarenga. E foi neles que continuaram fixos enquanto cumprimentava as pessoas mais importantes da festa.
Finalmente chegou até aquela que realmente lhe prendia toda atenção. Beijou-lhe carinhosamente a testa dizendo como estava bela. Esta sorriu observando que demorara para chegar. Mas como o motivo foi a conversa que teve com a mãe na saída sobre aquela noite e sobre ele,e sobre ela, a moça o perdoou mesmo sem saber do que se tratava.
Depois do brinde presidido pelo comendador a festa continuava embalada pelas melodias tocadas ao piano por um músico contratado especialmente para aquele momento. Passado algum tempo, que para Alvarenga pareceu interminável, este achou chegada a hora aproximou-se do comendador e com respeito pediu-lhe permissão para o que lhe passara à cabeça. O anfitrião poderia se sentir obrigado a lhe permitir tal coisa, mas o fato é que não se obrigou e até viu com bons olhos o que se sucederia e reunindo a atenção de todos da festa em torno de si e de Alvarenga disse estas palavras:
- Meus amigos, peço um minuto de atenção, mais um, mas agora não para mim e sim para nosso jovem amigo e doutor Cláudio Rodrigues que deseja dizer-lhes umas palavras, mais especificamente deseja falar à jovem mais bela desta noite, Isabela. A moça achou estranho e surpreendente o que estava acontecendo, mas achou por bom tom obedecer ao gesto do namorado que a conduzia até ao piano. O músico que ali estivera toda noite até aquele momento lhe cedeu o lugar. Não era conhecido no doutor Alvarenga este dom da música, é bem verdade que não lhe era dom, era uma diversão deixar-se estar ao piano nas horas de folga e de grandes tormentas das almas, mas aprendera a tirar do instrumento algumas poucas melodias e dentre estas a que Isabela mais gostava, convencendo assim de que faria mais romântica a cena do pedido precedida de uma canção tocada por ele.
A música era um clássico conhecido de todos e foi unânime a opinião de todos de que se não lhe fosse o nervosismo do momento não teria errado nenhuma nota. Mas assim como na canção errou alguns dós e rés, e sis e sol, também no coração cometeu um erro só que este maior e fatal. Cometeu o terrível engano de acreditar que Isabela o amava como ele a amava. A pobre moça ao ver-se parada à frente daquele homem ajoelhado segurando um anel e lhe pedindo em casamento na frente de todos não conseguiu dizer uma palavra que fosse, ainda que as únicas duas que precisavam ser ditas eram umas das menores do nosso idioma, bastava um sim ou um não. Aquela para fazer de Alvarenga o homem mais feliz do mundo e esta para lhe tirar o chão. Mas nada disse, apenas o fitou com pesar e saiu da festa correndo, trêmula, assustada e chorosa.
Nosso romântico nada pôde fazer se não se desculpar com o comendador que gentilmente achou de lhe dizer que a moça deveras se assustasse e tudo se resolveria pela manhã do dia seguinte com um definitivo e feliz “sim”.
Que sim que nada, Alvarenga se quer ouviu outra palavra da boca de Isabela, tudo que recebeu desta foi uma carta pequena, escrita às pressas e sem maiores preocupações. Dizia assim uma parte da correspondência, já que a outra se perdeu depois de rasgada por Alvarenga.

“Meu caro, amigo!

Obriga-me as circunstâncias mandar-lhe esta carta mais por pena de vossa pessoa que por amor ou qualquer outra coisa que possa imaginar ter em mim por você. Entendeu-me erroneamente, não o amo, nunca o amei e acho que nunca vou lhe amar. Digo isto por entender que não pode um único coração amar dois corações distintos, sim, isto mesmo que lhe digo. Há muito que eu amo outro e não é você, se não o disse antes é por não ter oportunidade, mas não tardaria, pois este amor estar por chegar do exterior e ele é o seu amigo de longa data e de estudos é o “...
Justamente a parte que nos apresentaria o dono dos sonhos de Isabela pertence ao outro pedaço de papel, este mesmo que Alvarenga fez questão de engolir tamanho foi o embrutecimento que lhe abateu no coração.


Já seria um fim particularmente sofrido este se terminasse aqui, mas o que o leitor talvez não goste de saber, pelo menos não gostará de o saber aqueles leitores românticos defensores dos finais felizes, é que nosso doutor Alvarenga após o acontecido e narrado acima teve de ser metido em um sanatório, isto mesmo, nosso doutorzinho jamais se recuperou daquele duro golpe no coração. E hoje tudo que sei de certeza e que posso expor aqui é que o pobre diabo passa os dias a tocar a mesma canção ao piano no sanatório que, por sinal, é a mesma tocada naquela noite, na festa, com a particularidade de que agora não erra uma nota se quer.



Publicação ainda não revisada...

3 comentários:

Anônimo disse...

Gostei muito!A cada dia vc sua escrita está melhor, continue investindo em seus contos e acredite nos seus sonhos.
Abraços
Kátia

Anônimo disse...

oi
gostei muito dos seus contos, eu támbém gosto de escrever mas não tenho o talento como o seu!
Parabéns
maria

BIA disse...

É UMA PENA QUE ISABELA NAO TENHA ACEITADO ESSE AMOR ,MAS DA PRA ESCREVER O ENCONTRO DELA COM...EU NÃO SEI O DO EXTERIOR.RSRSRSRS