No beco escuro
De repente o diabo me chamou para um canto, a cena ao redor de nós estava congelada, paralisada, pausada. O bandido que ainda há pouco ordenara que eu rezasse implorando por minha vida estava incrivelmente parado, não se movia, seu olhar petrificado, ainda denotava o mesmo ódio e prazer que fitava o meu, amedrontados.
O beco escuro por onde resolvera passar a fim de encurtar a distância e ganhar mais tempo em casa se transformara, num piscar de olhos, no meu inferno particular. Se houvesse um único minuto para me concentrar poderia ouvir a voz de minha esposa dizendo:
- Não atalhe por aí, é perigoso.
Mas eu, homem valente e corajoso, claro, não daria ouvidos se a ouvisse, e passaria a qualquer custo, mesmo que poucos metros beco adentro, tal atitude custasse minha vida.
Os bandidos, ou por vocação, ou por influência dos clássicos do cinema adotavam a mesma política – mandar que imploremos por nossas vidas. Nada mais perturbador que ter de implorar pela própria vida, ora se é minha, porque então tenho de implorar para que continue vivendo? Tudo bem que a vida não esteja lá essas coisas nos dias de hoje; há tanta violência, fome e doença no mundo que, sinceramente, talvez não valha mais a pena continuar vivendo.
Claro que em um beco escuro, sob a mira de revolver empunhado por um louco drogado em busca de uns trocados para mais um baseado não é o momento mais oportuno para filosofar sobre a vida ou a morte. É hora de lutar pela sobrevivência e tal luta se faz de maneira natural, instintivamente. Tão logo vi o cano do revolver apontado para minha cabeça tratei de ajoelhar e tirar do fundo da cabeça todas aquelas orações e nomes de santos que aprendera na infância. Mas nem bem os joelhos tocaram o chão e o diabo tratou de levantar-me. Segurou-me pelos braços de maneira bem educada dizendo:
- Não, não é necessário fazer isso. Venha aqui e conversaremos.
Para o representante do mal o sujeito era até bem educado. Acompanhei o tinhoso para um canto ainda mais escuro do beco escuro e ouvi com cuidado o que tinha para me dizer, e foi dizendo:
- Em casa a sua mulher já está terminando de preparar a sopa. Sua filha está saindo do banho, demorou um pouco mais hoje porque entrou mais cedo e assim não havia o risco de você chegar e apanhá-la demorando. Seu cão, aquele vira-lata, novamente revirou a lata de lixo e você, antes de entrar em casa, terá de arrumar toda a bagunça, novamente. Seu filho, esse menino, está trancado no quarto com aquelas revistas na mão preparado para escondê-las caso ouça alguém se aproximando. Enfim, tudo normal, a mesma vida de sempre, a mesma rotina que tanto gosta de reviver todos os dias. Mas, aqui as coisas estão um pouco diferentes para você, este homem, um bom soldado meu, está decidido a acabar com você, ele não gostou do fato de ter apenas uns trocados no bolso, isto que você tem não compra a metade do baseado que gostaria de comprar. O revolver está engatilhado, veja que o sujeito nem treme, está acostumado a este tipo de coisa, lhe é normal, lhe é rotineiro. Já você, ora, estava se ajoelhando para implorar pela vida, vê-se logo que é um fraco, caso não fosse, lutaria por ela ao invés de choramingar. E que oração era aquela vindo na sua cabeça? Não tem vergonha de se dizer cristão, estava começando-a pelo fim e o que viria depois era o meio, de outra. O que eu quero te oferecer é bem simples, quero te devolver a vida, te deixo ir para sua família em troca de sua gratidão.
Eu ouvia todo o discurso do diabo com atenção e sem reação, o tinhoso é mesmo louco, disparou a dizer todas aquelas coisas sem nem mesmo me deixar parar para entender o que estava acontecendo. Estava tão aterrorizado com a situação que cheguei julgar-me louco, bêbado, ensandecido alienado. Fechei os olhos duas ou três vezes na esperança de quando os abrir estar na minha cama ao lado do corpo quente de minha esposa, mas não, eu continuava naquele beco escuro, fedido em companhia do diabo e de seu soldado.
- Então, temos um trato? Perguntou com um amistoso sorriso nos lábios.
O diabo sabe ser gentil quando lhe convém, lembro de ter me ocorrido tal dedução. E continuou dizendo.
- Vamos rever mais uma vez a situação. Você está aqui, ajoelhado tentando emendar uma oração a outra esperando que o seu pai possa vir lhe salvar. O meu amado e obediente soldado está aqui, em pé, na sua frente, decidido a lhe tirar a vida. A arma está engatilhada e eu já posso sentir o cheiro de pólvora começando a queimar na propulsão da bala. Eu estou aqui, na sua frente, agora, em carne e osso te oferecendo a minha ajuda, te dando a oportunidade de voltar para sua casa com vida, com saúde. Basta que eu estale os dedos para você seguir em frente ou morrer por aqui mesmo. Diga a este seu novo amigo, o que decidi fazer. Fidelidade e gratidão a mim, ou morte?
Neste momento eu entrei novamente na mira da arma, olhei para o céu, fiz o sinal da cruz, e este eu ainda me lembrava como era e disse ao diabo:
- Eu posso não saber mais rezar, nem me lembrar de como se pode pedir ajuda de Deus nesses momentos. Eu sei também que não tenho o direito de exigir que Ele mande um anjo para me salvar porque eu mesmo não tenho me lembrado Dele há muito tempo, mas de uma coisa eu sei; entre viver Deus no esquecimento e você na lembrança, prefiro Deus. Faça o que quiser com minha vida, sei que, de certa forma, eu irei para Deus.
Depois de dizer estas palavras escutei um estrondo e minhas vistas escureceram, acreditei ser o tiro que me atingira tirando-me a vida. Senti uma dor na cabeça, certamente por onde a bala teria entrado, estranhei não ser uma dor tão forte assim, sempre pensei que levar um tiro deveria doer muito. De repente começo a escutar algumas vozes chamando meu nome, segurando meu braço, abrindo meu palito. Ainda de olhos fechados imaginei abrindo-os e deslumbrando as maravilhas do céu, ora, e não haveria mesmo de ser o céu o meu destino já que dissera não ao diabo cara a cara, não haveria mesmo de merecer outro lugar que não o paraíso eterno.
Então, comecei a abrir os olhos bem devagar saboreando um pouco mais a imaginação que imaginava um cenário todo novo de paz, harmonia e amor. Uma luz começou a tomar forma, parecia uma lâmpada, dessas que usamos na terra. Parecia presa a uma luminária também como essas que usamos no mundo dos mortais. Meu corpo estava sobre um piso de cerâmica encerado, exatamente como esses que se usam na terra. Meu corpo ainda vestia roupas como essas que se veste na terra e o lugar onde me despertava era bem parecido com meu escritório na terra. Tudo estava meio confuso, um pouco turvo, sem nexo, mas aos poucos tudo foi se tornando forma e uma voz acabou por me situar do ocorrido:
- João, tem trabalho demais, precisas de umas férias.
As pessoas ao redor de mim começaram a dar gargalhadas, gostosas gargalhadas.
Eu havia adormecido sobre os papéis que me mantinha concentrado umas boas duas horas e caído no chão, batido com a cabeça. Na certa tudo não passara de um pesadelo, um terrível pesadelo.
Geraldo Ferraz
25/07/2010
03:05’26”
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