terça-feira, 29 de novembro de 2011

A ÁGUA E O CHUVEIRO


A ÁGUA E O CHUVEIRO

            Certa noite de inverno em que o frio estava mais rigoroso, onde tão logo o sol se escondia a temperatura caia ferozmente – aquelas noites frias em que você anda pelas ruas sem ver uma alma viva e que o orvalho da madrugada, na verdade molha tudo bem mais cedo.
Pois bem, numa noite dessas eu cheguei tarde em casa, já passavam das vinte e três horas, vinha do trabalho onde, na última hora, meu bom e adorável chefe – melhor dizer assim, pois pode o honrado homem ler este conto – delegou-me tamanha e inacreditável tarefa que consegui concluir já bem tarde. Não havia ido trabalhar naquele dia de carro – meu lado ambientalista ditava-me regras precisas quanto ao uso do veículo – e já sendo tarde, não havia mais ônibus para meu bairro obrigando-me a fazer todo o trajeto a pé, solitário, tremendo de frio.
Como já sabes agora porque cheguei tarde naquela noite, vamos ao que interessa. Que a noite estava muito fria, já sabe, que lá fora o vento soprava ferozmente parecendo cortar a pele, podes imaginar e como é terrível tomar banho nestas condições, creio, também sabes, banhista leitor. Mas o que talvez não saiba é que eu tinha que cumprir este penoso sacrifício – tomar banho. Não digo penoso o ato do banho, propriamente dito, mas o fato de estar muito frio.
Mas, como não era este um daqueles hábitos corriqueiro que em se não fazendo hoje se pode fazer amanha, lá fui eu. Já dentro do banheiro pensei em me exercitar um pouco, umas flexões de braço, uns pule-chinelo para aquecer o corpo um pouco, no entanto estava muito cansado para tal. Então, abri o chuveiro um pouco apenas, o suficiente para fazer o fluxo de a água ativar os contatos e esquentar-se. Mas, ou eu não abri o suficiente, ou a água estava muito fria, ou o chuveiro muito preguiçoso, o fato é que parecia nem haver chuveiro de tão fria que estava a água. Então, já estressado, cansado e desesperado para terminar o banho e ir deitar-me, voltei para o chuveiro como se pudesse me ouvir e disse:
- Como é, vai esquentar esta porcaria não?
- Nossa, o patrão te chamou de porcaria. Ouvi esta frase num sussurrar irônico e debochado.
Ouvi, mas procurei não ouvir, já que estava sozinho no banho e chuveiros não falam, melhor me pareceu não ter ouvido mesmo. Mas em seguida ouvi outra voz, mais suave, mais fina, mais molhada. Era a água se defendendo:
- O patrão me xingou por sua culpa, se fizesse seu trabalho direito, que é me aquecer, não haveria reclamação alguma.
Agora eu estava escutando a água falar também, e mais ainda, se defendendo, ora, deveria estar muito cansado e estressado mesmo – água e chuveiro não falam, sentenciei-me. Mas a discussão foi ficando ainda mais apimentada e agora era o chuveiro quem retrucava:
- Como posso fazer meu trabalho com qualidade se você teima em descer tão gelada assim? Desse jeito não há chuveiro quem agüente.
- Ah, mas se fosse aqueles chuveiros de verdade, aqueles de aço inox, grandes, duzentos e vinte voltes conseguiriam me aquecer sim.
- Está maluca, sou filho de um chuveiro assim, o Chuvisco, meu pai, é o melhor chuveiro da série e até ele, te garanto, não conseguiria te aquecer tão gelada assim, água sem vida.
- Se o seu pai, o Chuvisco, não consegue me aquecer a esta temperatura, está provado que ele realmente é seu pai, e você filho dele.
Eu já estava com a cabeça começando a doer neste momento confuso com o que acontecia. Cuidei está dormindo, talvez tivesse chegado muito cansado e ido deitar direto, pegado no sono rapidamente e aquilo era um pesadelo. Mas o beliscão que me dei provou o contrário, estava acordado e, infelizmente, presenciava aquela discussão. Como o problema era a temperatura da água resolvi me aventurar estivesse ela como estivesse, talvez tomar o banho o mais rápido possível e sair logo daquele banheiro me recobraria a consciência. Assim fiz, entrei de relance sob o chuveiro e deixei a água banhar o corpo, mas como estava muito fria saí em seguida deixando escapar mais um insulto, agora ao chuveiro.
- Esta porcaria de chuveiro deve estar velho e com problemas, ta muito fria a água.
- Chuveiro velho e porcaria, isso mesmo patrão, agora descobriu quem esta com problemas aqui. Tratou de se adiantar a água.
- Com problema está é o senhor, isto são horas de vir tomar banho? Não sabe que é inverno e o frio está mais rigoroso este ano. Como posso conseguir aquecer esta água que já vem do reservatório parecendo pedra de gelo? Disse diretamente a mim o chuveiro demonstrando muita revolta na sua voz.
- Eu não tenho culpa, por mim já estaria de banho tomado há muito tempo, mas...
- Mas o que patrão? O meu amigo chuveiro aqui tem razão, está mesmo muito frio, o senhor deveria ter chegado mais cedo em casa. Saiu em defesa do amigo chuveiro, a água fria.
- É o que estou dizendo, eu fiquei preso no trabalho, só pude chegar agora. Estou cansado, estressado, com sono e acho que também maluco, pois estou conversando com vocês dois.
- Ora, maluco está mesmo, num frio desses vir tomar banho a esta hora, faça-me o favor.
Quando dei por mim já estava envolvido naquele louco debate sem nem mais me preocupar se tudo aquilo era real ou não. Eu queria era terminar o banho que nem tinha começado e sair logo dali. Então propus aos dois – ao chuveiro e a água, acreditem:
- Vamos fazer assim: eu não quero estar aqui, vocês não querem trabalhar a este horário, já é tarde, está muito frio, nenhum de vocês dois tem culpa, nem eu mesmo tenho. Cada uma faz um sacrifício extra e tudo se resolve logo.
- Apoiado, disse a água, você, chuveiro, trabalhe um pouco mais empenhado e me aqueça que o patrão toma banho rapidinho e a gente volta ao sossego do nosso silêncio.
- Está bem, vou tentar, mas o senhor patrão – disse o chuveiro a mim – nada de ficar cantarolando aquelas músicas chatas e nada de fazer aquelas outras coisas que o senhor tem costume de fazer aqui no banho heim!
- Mas as músicas que canto aqui são boas canções, não acham? Perguntei um pouco desapontado. E foi a água quem justamente saiu em minha defesa.
- Eu gosto sim, patrão, são todas belas, é que meu amigo aqui é mais voltado para o rock pesado, aí já viu não é mesmo!
- É melhor o rock pesado do que essas canções para boi dormir. Disse o chuveiro dando uma sarcástica risada.
Antes que água pudesse opinar mais uma vez, era mesmo muito versátil aquela água, tratei de colocar um fim naquele novo embate.
- Gente, vamos nos concentrar no banho estou sentindo frio aqui e estou cansado, outro dia terminamos esta discussão.
- Apoiado! Disseram ao mesmo tempo, a água e o chuveiro.
Então, incrivelmente a água se tornou mais quente e o chuveiro pareceu-me mais inteiro que nunca. Limitei a tomar o banho rapidamente, sem cantarolar nada. Durante os poucos minutos de silêncio que foi feito pude ouvir a voz da minha consciência que dizia que tudo aquilo era minha imaginação.
Terminado o banho, desliguei o chuveiro, apanhei a toalha, enxuguei o corpo, vesti a roupa e antes de sair do banheiro ouvi duas despedidas carinhosas:
- Boa noite patrão, veja se amanhã não chega tão tarde para o banho, disse o chuveiro.
- Não dê ouvidos para meu companheiro aqui, patrão, amanhã, pode tomar seu banho cantando, ok?!


0 comentários: